Cada vez mais moradores compram carro elétrico e pedem um carregador na vaga. Se cada um puxar um circuito por conta própria, sem olhar para o prédio como um todo, a soma das cargas pode passar do limite da entrada de energia, e o resultado é disjuntor geral desarmando, cabos aquecendo e obras refeitas. Em condomínio, o carregador precisa ser planejado para o prédio, não só para a vaga.
1. O estudo de carga: quanto o prédio aguenta
Tudo começa medindo a demanda real do condomínio: o histórico de consumo das contas de energia e, quando possível, a medição da curva de carga por alguns dias, com os horários de pico. Medir só um momento com um alicate amperímetro não basta: o pico pode estar em outro dia ou horário.
Esse levantamento é comparado com a capacidade da entrada de energia (transformador, disjuntor geral e cabos de alimentação). A diferença é a sobra. Uma parte dessa sobra, com margem de segurança, vira a potência dedicada aos carregadores.
- Capacidade da entrada do prédio: 110 kW
- Maior demanda medida no ano: 65 kW
- Sobra: 45 kW
- Reservando 70% da sobra para os carregadores: 31,5 kW dedicados
Com carregadores de 7,4 kW, 31,5 kW alimentam 4 carros ao mesmo tempo em potência máxima. Com gestão de carga, o mesmo prédio pode ter 15 ou 20 vagas com carregador, porque nem todos carregam juntos e o controlador organiza quem recebe energia. Os números reais saem do estudo de cada prédio.
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A NT 23/2026 do Corpo de Bombeiros do ES pede exatamente isso no laudo: o levantamento da curva de carga da instalação existente e se o acréscimo de carga exige troca de transformador, fiação ou quadros.
Próximo: o medidor dedicado2. Medidor dedicado: um ponto só para a recarga
Em vez de cada carregador sair de um lugar, o condomínio monta um circuito exclusivo para a recarga, com um medidor dedicado aos carregadores. Todo morador que pedir carregador é ligado a partir desse ponto. Assim o condomínio sabe exatamente quanto a garagem consome.
O consumo de cada vaga é identificado por aplicativo, cartão RFID ou submedidor no próprio carregador. No fim do mês, o valor de cada morador é repassado na taxa do condomínio, pelo custo da energia na conta do prédio e pela regra aprovada pelos condôminos. Quem não tem carro elétrico não paga a recarga dos outros.
Medidor da EDP ou do condomínio? O mais comum é a submedição interna: um medidor do condomínio depois do medidor geral da EDP. Um medidor separado da própria EDP só para os carregadores é tratado como exceção na norma de fornecimento da distribuidora e precisa ser confirmado com a EDP em cada caso.
- EntradaEnergia da EDP para o prédio
- Quadro geralProteção e desligamento geral dos carregadores
- Medidor dedicadoMede tudo o que vai para a recarga
- Controlador de cargaRespeita o limite do estudo: fila ou divisão
- VagasCada morador identificado e cobrado pelo que usou
3. Gestão de carga: o equipamento que organiza tudo
O coração do sistema é o controlador de carga. Ele conhece o limite definido no estudo e conversa com os carregadores para que a soma nunca passe desse valor. Há duas formas de trabalhar, e o projeto define qual (ou a combinação das duas):
Por fila
Enquanto o limite está ocupado, quem chega espera. Quando um carro termina e desocupa a potência, o próximo da fila começa a carregar. Cada carro carrega na potência máxima, um grupo de cada vez.
Por divisão
A potência disponível é repartida entre todos os carros ligados. Ninguém espera, mas cada um carrega mais devagar quando há muitos conectados ao mesmo tempo.
Na versão dinâmica, o controlador também mede o consumo do prédio em tempo real: de madrugada, quando elevadores, bombas e apartamentos consomem menos, libera mais potência para a garagem; no horário de pico, reduz. É o que permite atender muitas vagas sem aumentar a entrada de energia.
4. Experimente: a garagem do prédio
Um prédio de exemplo com oito vagas e carregadores de 7,4 kW. Toque nas vagas para os carros chegarem, troque entre fila e divisão e ligue a gestão dinâmica para ver o controlador acompanhando o consumo do prédio. O tempo corre acelerado: cada segundo equivale a cerca de 15 minutos.
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5. Normas e aprovações no Espírito Santo
Corpo de Bombeiros (CBMES)
A NT 23/2026, publicada pela Portaria 746-R de 09/03/2026, trata das garagens com recarga de veículos elétricos. Entre os pontos principais:
- Instalação conforme NBR 5410, NBR 17019 e NBR IEC 61851-1, sob responsabilidade do técnico e da empresa instaladora junto com o condomínio.
- Ponto de desligamento manual a até 5 m dos carregadores e desligamento geral de todos os carregadores no quadro.
- Sinalização "EM CASO DE INCÊNDIO, DESLIGUE" e placas fotoluminescentes.
- Laudo de profissional habilitado com ART: curva de carga, necessidade de troca de transformador ou quadros, total de pontos, correntes e proteções.
- Prédios existentes: as regras básicas do item 5.2 em até 1 ano da publicação e a adequação completa em até 3 anos. Na transição, a recarga pode ser licenciada com ART e laudo.
Lei estadual 12.857/2026
A Lei 12.857/2026 garante ao condômino o direito de instalar um ponto de recarga na própria vaga, por conta própria, desde que compatível com a carga disponível, conforme as normas da distribuidora e da ABNT, com profissional habilitado (ART) e aviso formal ao condomínio. A convenção pode regular cobrança e padrões técnicos, mas não pode proibir sem justificativa técnica documentada.
EDP
Quando o estudo indica aumento da carga da entrada ou o condomínio quer medição própria da distribuidora, é preciso consulta e aprovação da EDP antes da obra. Sem aumento de carga e com submedição interna, a gestão de carga fica dentro da instalação do condomínio. Cada caso deve ser confirmado com a EDP.
Este conteúdo resume as regras vigentes em novembro de 2026 e não substitui o projeto e o laudo de cada prédio.

